Futuros possíveis #8 Fabíola Trinca


foto: Diana Grimmer


Por favor, apresente-se em poucas palavras.

Me chamo Fabíola Trinca, sou artista visual, tingidora natural e figurinista. Minha trajetória profissional e pessoal foi cheia de curvas acentuadas. Cursei Bacharel em Psicologia (UFRJ) e comecei minha carreira como produtora de audiovisual, me profissionalizei como figurinista de cinema e me especializei como tingidora natural. Hoje minha prática têxtil me fez ir além e ultrapassar os limites do corpo humano como veículo, transformando meu sentir em objetos, instalações e obras de arte que dialogam com a transformação humana, manifestações diretas da natureza e expressas através de matérias primas naturais, ligadas diretamente à nossas raízes ancestrais. Esse caminhar rumo a descobertas é contínuo. 


-O que representa o momento atual para você? 

Sinto profundamente que o que estamos vivendo é um grande colapso do ecossistema da terra e que envolve uma crise sanitária, uma crise de valores, uma crise política em muitos países e regiões, mas que também envolve diversas pequenas crises pessoais, sistêmicas a cada indivíduo e seu microcosmos de atuação. Essas crises pessoais só puderam ser observadas e sentidas pelo grande colapso estrutural que o mundo está passando agora. Sistemas econômicos e sociais precisam ser revistos, ressignificados e redesenhados a partir de novas posturas de líderes e poderes mundiais. É como se o universo tivesse dando uma oportunidade para darmos um reset nos nossos modos de vida excludentes, racistas, patriarcais e privilegiados. Uma segunda chance nos é dada, para mudarmos de vez comportamentos pessoais e institucionais, o que requer o esforço de todos os humanos juntos, compartilhando e somando, desafiando o significado da nossa própria existência. 


-O que, do modelo antigo, pode ser resgatado para o futuro?

Acredito que o modelo antigo necessite sofrer uma remodelação sistêmica urgente, mas também acredito que os avanços da pesquisa médica, da tecnologia e da ciência tenham servido para a construção de uma sociedade com mais respostas, mas ainda não totalmente regenerativa e que continua desafiando os limites da existência humana, degradando, segregando e aumentando os malefícios ao todo em conjunto. Pode parecer utópico, mas creio num modelo de existência humana totalmente consonante com as leis naturais, mas para que isso aconteça, precisamos entender o papel fundamental e sagrado do conhecimento dos povos originários e valorizarmos esse saber conjuntamente aos avanços científicos. Resgatar a ordem da vida no início de tudo, voltar atrás para ir à frente.   


-O que deve morrer?

Acredito que a morte seja um rito de passagem, uma continuação dos ciclos naturais. Na natureza as árvores morrem, os animais morrem, as estações mudam e algumas paisagens morrem. Tudo passa, tudo se renova, mas diferente da identidade de morte como perda para algumas culturas, acredito que esse rito deva ser entendido como parte  natural do que somos. Devemos morrer para o novo vir em novas formas de vida, dando continuidade ao movimento cíclico. Como os que entendem a morte como um processo que compreende o início da vida, acredito que tudo deva morrer para renascer. Não parto de um princípio e pensamento que deva morrer o que é mau ou ruim, pois para mim esse sentimento não opera na minha fonte de vida plena. Logo, morrer é continuar.


-O que deve nascer?

Podemos contribuir para o nascimento de muitas formas de vida que não exercemos até agora por conta de um sistema econômico que nos dita diariamente como deve ser vivida a nossa própria existência. E sem ilusões de que esse sistema irá ou não mudar, acredito no nascimento ou renascimento interior, que a partir de uma nova forma de ser e pensar, existimos renovados e diariamente, esse processo de auto busca e renascimento vai florescendo novos comportamentos à nossa volta. Sem renascer dentro, todo nascimento externo não conecta de fato. Claro, que nascer e morrer é um ato natural, inerente à muitas espécies, mas quando falo aqui de renascer, não é no sentido físico e sim existencial. 


-Num cenário utópico, como seria o futuro ideal?

Bem, essa pergunta é difícil generalizar, pois cada povo e cultura, precisa de um futuro alinhado a sua própria realidade e necessidades muito diferentes umas das outras, mas vou tentar responder pela minha realidade hoje, vivendo numa grande cidade latino americana como o Rio de Janeiro: um futuro ideal aqui de cara já exige mais igualdade e menos racismo. Já subentende que uma sociedade com tradição colonial precisa entender uma palavra que para mim hoje faz muito sentido “decolonização”. Um futuro ideal para mim compreende respeito, igualdade, menos diferenças raciais ou sociais. Compreende diversidade e consciência, transformação interna e consequentemente externa, menos violência, menos egoísmo e abismos sociais por conta de uma ferramenta de troca, que o homem deu tanto poder, chamada “dinheiro”. E, por fim, eu entendo e sinto que um futuro ideal deve ser menos exploratório e mais regenerativo completamente. 


-E na realidade, como seria um futuro possível?

Se a gente precisa pensar num futuro que tenha diferenças entre real e possível, fica difícil. Prefiro responder essa pergunta com as respostas ao utópico. Para mim a realidade deve ser praticada com o que sonhamos, desejamos e acreditamos em coletivo, e por isso tudo o que eu desejo utopicamente pode se tornar realidade se estiver nos corações de muito mais pessoas. 


-O que deve ser feito no nível individual, coletivo e estatal para consegui-lo?

No nível individual, primeiro acredito que precisamos ser mais ativos como cidadãos, como ativistas mesmo. Colocar em prática o poder pessoal com o foco na transformação social, unindo esses poderes coletivamente, assim a massa fica mais forte. Ainda mais hoje, vivendo numa era super digital, viralizamos o que quisermos na internet! No nível coletivo essa força ganha mais força de luta, alcança mais pessoas, faz mais barulho, incomoda mais. De forma organizada e colaborativa podemos trocar diversos saberes e instruir pessoas de diferentes classes sociais juntas ao mesmo tempo. Vejo como um grande ciclo de troca de saberes diferentes, com todo tipo de pessoa ensinando e aprendendo, assim podemos construir uma sociedade mais humana, na minha humilde opinião. Todos tem algo à dizer e todos têm algo a aprender e muitas vezes nos cabe somente escutar e tentar entender. E por fim, à nível estatal, acho que o início de tudo é mudar o sistema de poder público, abrir as frestas para mais decisões sendo votadas e decididas com participação do povo e das populações específicas à cada realidade geográfica. Descentralizar o poder, descentralizar a energia do dinheiro de uns poucos, dividir para somar, elaborar mais participação de pessoas nas elaborações de leis e claro, além de tentarmos eleger sempre as pessoas que acreditamos nos representar de verdade, é entender como esse sistema político defasado necessita ser reformulado para ontem.  


-Qual pode ser o primeiro passo? 

Sair da sua própria zona de conforto. Algumas pessoas acham que a pandemia vai mudar realidades e pessoas, práticas e vidas. Algumas que já despertaram, sim, irão e serão novos seres humanos, outras continuaram sendo boiada até o próximo verão chegar. A responsabilidade é literalmente de cada um de nós.  


-Sua intenção: Quero que o futuro possível seja…

Harmônico, dançante, libertador, igualitário, majoritariamente feminino, alegre feito criança, com muita criança por perto, diverso, plural, simples, natural, consciente, ético e com muita arte e beleza para a gente poder regenerar tudo por dentro e deixar um legado incrível para as próximas gerações. É da lama que nasce a flor de lótus, que nasce a vida. Não esqueça. 



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